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segunda-feira, 17 de maio de 2010

À parte

       Aquele homem, com os ares de urgência de sempre, não sabia chamar um filho só. Dizia, como lhe viesse à boca, o nome de todos. Menoscabava a primogenitura. Então, aquela filha, por ser uma das mais novas, permanecia sendo “Esta”. Depois de dizer: "Clara, Amélia, Maria", o último nome, o desejado, como que escapava-lhe à boca: “Esta”.
        Ela, em princípio, atribuiu tal atitude a espasmos de bom humor do pai. Raro. Mas depois cresceu. Viu que só poderia ser nomeada em presença dele. E ele não sabia chamar os filhos um a um.
        Corporificada, nominada só em pronome demonstrativo.
        Pai de todos, só poderia chamá-los qual corpus homogêneo.
        Os filhos, juntos, uma entidade.
        Isso fez influência nas maneiras  dela chamar sentimento. Numa série, qual escolher?
        Ela ficava horas olhando para a cor do dia, como se dentre matizes, pudesse dizer um nome. E sem nome que dar, atirava: “Esta”.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Da vez primeira em que me reconheci

        Sozinha em casa, meu corpo era uma ferida aberta. Eu costumava fazer diligências e buscar possíveis segredos de família que poderiam me ser escondidos. Afinal, eu supunha, toda família tem cavernas recobertas de teias obscuras. Depois fiquei sabendo que uma família pode ser uma fruta podre, mas sempre é bonita de algum modo. Nutria um sentimento que encontraria um espaço ou coisa inominável, desconhecida. Inexplicavelmente, meu nariz sangrava. Quando senti o líquido quente molhando a face, invadindo a boca e entalando a garganta; eu não sabia. Corri para o espelho, raro na casa. Jamais esqueci o gosto morno da solidão e da cor decomposta pela água. E eu ria um riso bobo e certeiro, pusilânime, avassalador, triste. Eu era aquela imagem. Completamente entregue a mim mesma e achando graça de existir tão independentemente dos outros. Isso já faz muito tempo e esta foi a primeira vez que me lembro de ter pensado o inexistente. Enquanto ria, pronunciava meu nome e isso me fazia mais cócegas e revigorava. Queria parar o riso e me reconhecer naquela centelha espirrada, soprada, pulsante, mutante, correndo, vermelha. Mas não deu.