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domingo, 26 de fevereiro de 2012

De terreno e de texto

       Escrever um texto assemelha-se ao ato de fazer uma roça. Pois,  quando se chega em um terreno, primeiro há que se percorrê-lo todo, tomando nota de onde estão suas envergaduras e de para onde  vão suas inclinações, em elas havendo. Caso  ele não as tenha, por plaino de feitio ou amainado, então semeia-se à mão cheia. Mas em ele sendo rústico, de relevos irregulares ou íngremes, então se estuda com mais cautela como proceder a semeadura. Para um texto quase  se pode seguir o mesmo princípio: considera-se o terreno, ou tu mesmo,  as ferramentas que se tem e as primeiras idéias, seminais. Depois de tê-las percorrido, é chegado o momento de descobrir como arremessá-las ao solo chão do papel branco,  (ou da tela, mais factível para os tempos que correm).  Escolhidas as primeiras palavras, então sim, vai se adubando com outras ideais próprias ou lidas e tomadas daqui e dali. Quando o solo é fértil, ou quando a ideia é fértil, quase que se toma tudo do chão próprio. Mas em se tratando de terreno extenuado ou inexperiente, buscar suplementos será um requisito.  Citar os outros em um texto autoral é parecido com adubar o terreno, injetá-lo de vigor e ousadia, renová-lo, acrescendo-lhe artificialmente daquilo que é fundante a um terreno, dar-lhe consistência.  Solo adubado, sementes lançadas e enfim...  o demais do trabalho é do colono, do escritor. Ele, manuseando as ferramentas escolhidas com rigor, dará estatura ao texto e fará de sua escritura/cultura a própria representação de si. Eu acho que é assim que eu tento escrever um texto.

terça-feira, 20 de julho de 2010

Receita de bem esperar

Faz-se assim. Quando chegar o final do outono e antes das primeiras geadas do inverno, deve-se recolher as ramas da mandioca, que já não terão folha alguma, e juntá-las em local protegido. Não precisa ser ao paiol ou à casa, basta cobri-las totalmente, com pendões secos de milho, por exemplo. Quando todo o inverno tiver passado e na hora exata, depois de arada a terra e prontas as covas, é necessário partir as ramas em pedaços da medida de um palmo. Abrigue  os pedaços  exatos de rama em seu avental e, andando por sobre a leira, deposite um pedaço de rama boa a cada espaço de um passo adulto, dois se você for criança. Com o seu próprio pé você deverá cobrir a rama e seguir repetindo o procedimento de jogar, cobrir, andar em frente até o fim do eito, para então retornar em nova leira. Depois de alguns meses as raízes já terão crescido o suficiente sob a terra. Sobre a  superfície um novo território terá surgido proporcionando sombra e deleite aos pequenos animais e às crianças, que gastarão longas horas imaginando mundos e trançando com as folhas da mandioca  os acessórios indispensáveis: mesa e cadeira, pratos e talhares. Mais alguns meses e você poderá arrancá-las para que sirvam de alimento, imprimindo força de duas mãos na base dos galhos, ali mesmo onde eles deixam a terra. Sob umidade, temperatura, força e inclinação ideal, você terá conseguido arrancar todas as raízes do pé de mandioca de uma única vez. Nenhum desses itens pode medrar, sob pena de uma ou mais raízes não se disporem a sair do abrigo terra. As raízes são então postas no cesto de bambu e levadas ao córrego, onde serão lavadas. Então, deve-se retirar a pele que a recobre e mais abaixo dela uma estrutura perfeita que se descola de cada pequeno cilindro em que se transformaram as raízes.  E surgirá a cor mais alva onde antes imperavam os tons ocre-avermelhados. Fácil agora: o fogão à lenha já deverá estar aceso para receber a panela com as mandiocas para o cozimento. Cozidas, podem ser degustadas acompanhadas do que lhe aprouver. Mas, desnecessário dizer, ela se basta. Não sei se plantar mandioca ensina a gente essas coisas de cidade. Eu só acho que ensina receita de bem esperar, de bem querer, de bem sonhar. E isso basta.