Escrever um texto assemelha-se ao ato de fazer uma roça. Pois, quando se chega em um terreno, primeiro há que se percorrê-lo todo, tomando nota de onde estão suas envergaduras e de para onde vão suas inclinações, em elas havendo. Caso ele não as tenha, por plaino de feitio ou amainado, então semeia-se à mão cheia. Mas em ele sendo rústico, de relevos irregulares ou íngremes, então se estuda com mais cautela como proceder a semeadura. Para um texto quase se pode seguir o mesmo princípio: considera-se o terreno, ou tu mesmo, as ferramentas que se tem e as primeiras idéias, seminais. Depois de tê-las percorrido, é chegado o momento de descobrir como arremessá-las ao solo chão do papel branco, (ou da tela, mais factível para os tempos que correm). Escolhidas as primeiras palavras, então sim, vai se adubando com outras ideais próprias ou lidas e tomadas daqui e dali. Quando o solo é fértil, ou quando a ideia é fértil, quase que se toma tudo do chão próprio. Mas em se tratando de terreno extenuado ou inexperiente, buscar suplementos será um requisito. Citar os outros em um texto autoral é parecido com adubar o terreno, injetá-lo de vigor e ousadia, renová-lo, acrescendo-lhe artificialmente daquilo que é fundante a um terreno, dar-lhe consistência. Solo adubado, sementes lançadas e enfim... o demais do trabalho é do colono, do escritor. Ele, manuseando as ferramentas escolhidas com rigor, dará estatura ao texto e fará de sua escritura/cultura a própria representação de si. Eu acho que é assim que eu tento escrever um texto.
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domingo, 26 de fevereiro de 2012
domingo, 23 de maio de 2010
A divisa imprecisa
O processo de aquisição de escrita em muito se assemelha ao ato de escrever em si. Superada a fase em que as questões ortográficas e a estatura da letra são os grandes dilemas, restará um outro tipo de ir e vir ao texto.
Todo o escritor irá até o nu da palavra e a interrogará, querendo-lhe as vicissitudes. Quando minha aluna me perguntava outro dia se em nascimento cabia c, s ou sc, pus-me a pensar que o nascimento da escrita não se faz sem interrogações intermitentes. Seja qual for a natureza da pergunta.
O escritor aprendiz tem um zelo pelo desenho da letra, principalmente nas vezes primeiras em que se arrisca na letra bastão. E essa, intuo, é outra nuance eterna do ato de escrever: há que se desenhar uma ideia como se estivéssemos desenhando uma letra decisiva.
O escritor aprendiz é extremamente minucioso com qualquer eira sobressalente, letra a letra, divisa a divisa.
Como um aluno aprendiz de escrita, querendo que a letra seja exata, sob pena de significar outra coisa, o escritor adulto limpará o terreiro da escrita, palavra a palavra, retirando-lhe pedra solta, cisco, pó ou beira.
O texto do escritor aprendiz é formado por ausências. O texto planeado do escritor adulto, abusará delas, requerendo a presença do leitor. O vazio será então uma estratégia do texto.
O aluno aprendiz de escriba trafega entre modos de ler e escrever. Silabando, tateando, inferindo, adivinhando, surpreendendo-se, lendo. Migra da caixa alta para a cursiva, esforçando a letra, escrevendo.
O escritor adulto, quase maquinalmente, escreve. Sua mente é que migra de si para si, para o mundo: silabando, tateando, inferindo, adivinhando, surpreendendo-se ao revés: lendo e escrevendo.
Viver a aprendizagem da escrita diariamente, qual criança, muito pode ensinar ao escritor adulto.
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