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sexta-feira, 9 de março de 2012

Da série "apontamentos para uma biografia"

Eu era criança quando descobri que os loucos pegam por atalhos. Depois, Manoel de Barros me ensinou de novo.
Eu odiava a ideia de não ter minha dor respeitada. Porque sempre repetiam, em tom de pecha, quando eu tinha feridas simples, como um espinho à pele: “ai, cuidado porque vai sair a barrigada”. Uma dor de criança é assim: visceral. Então, sim, era uma dor capaz de pôr tudo a perder: a possibilidade de brincar, de ser feliz, de aprender, de estar.
Eu ganhei um presente sem nunca tê-lo recebido, e por isso sonho até hoje com presentes inexistentes.
Eu já era adolescente quando recusei-me a receber uma carta de amor. E fiquei para sempre imaginando como seria receber uma carta de amor.
Em adulta fiz escolhas, e, de todas, as mais imperecíveis são as da memória. Aquilo que se ama com a memória, diz Adélia Prado, ama-se eternamente.
Quando não estou para nada, luto e brinco de apaziguar memórias, mas quem consegue?

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Apontamentos para uma biografia

           
 Jovem,  eu visitei cidades e aprendi a percorrê-las e percorrendo-as pude amar suas geografias.
           Adolescente,  deixei meus pais para  morar na cidade e demorei pra entender que um barulho de carro era um barulho de carro e não o anúncio de uma visita inesperada em meio às lides da vida no campo.
             Mas era infância quando:
            Tive minha confiança solapada pela primeira vez foi porque, a pretexto de me mostrar algo, meu irmão pediu que eu abrisse muito os olhos. Assim o fiz  e ele os encheu com quirera fresca, causando em mim imensa dor. A dor de  um amor traído.
            Eu me machucava e ouvia sempre a mesma frase: “Mas o que é que você foi fazer?” E isso fez influência em meu modo de entender  causa e efeito.
            Ganhei  uma irmã mais nova e eu  tinha certeza que ela brincava com minha coleção de latinhas Royal mesmo estando ainda na barriga de minha mãe.
            Eu  tinha só um vestido,  amarelo serpenteado de bolinha brancas. Minha mãe o lavava com zelo. Mas um dia ela o  estendeu  no varal e, com zelo,  a vaca o comeu.
            Eu ganhei meus primeiros sapatinhos vermelhos e um deles foi engolido pelo ralo do tanque logo na primeira lavada. A torrente de água fugidia  deixou-me só, como só, restou um sapatinho vermelho.