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quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Retrato de uma ausência

     Um irmão fisgado inesperadamente pelo fio da morte pode ser reconhecido em lugares muitos. Em vãos. A esmo. Num recorte de patchwork visto de relance na roupa de alguém. No andar da formiga sobre a pele. Na fotografia escondida na gaveta. Nas cartas deliberadamente guardadas. Na audição de sua música predileta. Na memória de seu legado. Na palavra que se escreve. Na escolha por fazer. Na lembrança do amor herdado. Na ferocidade do tempo. Nos ermos que se perfazem.
     O retrato da presença/ausência de um irmão é indelével.
     Um irmão ausente pode para sempre ser encontrado.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Ermos

Por minha alma ser esse ermo,
Eu aprecio jarras e boiões antigos que se tem em casa para ali estarem, vazios.
Eu sou capturada pela alternância de azul turquesa e brancos não preenchidos nas peças de faiança.
Eu fotografo ninhos vazios.
Eu leio cartas antigas.
Eu lembro das estampas e tecidos que minha  mãe usava quando grávida da minha irmã.
Eu vejo álbuns amarelados.
Eu anoto fragmentos.
Eu velo a esponja vegetal toda cheia de vazios.
Eu procuro, na cidade vazia, pelo simples hábito de procurar.