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quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Dentes

             Dentre as sementes, as aladas são minhas favoritas. Nada exercia mais fascínio sobre minha infância que arremessar dentes-de-leão e, em vão, tentar capturar cada um dos cursos que iam desenhar no céu.
              Mesmo hoje não resisto a colher dente-de-leão que se põe em meu caminho e, claro, sigo o ritual de fazer um pedido enquanto  os assopro (“Em que crêem os que não crêem?”).
             O dente-de-leão, quando flor imatura, até lembra, remotamente, a juba de um leão. Mas de resto distanciam-se. Acho a flor mesmo tacanha e sua altivez restará ínfima se comparada a do leão. Opinião sobre a qual ainda estou indecisa.
              E depois tem a palavra dente no nome. Dente, esta aí como fato dado, até o momento em que se vai ao dentista, mais por força do hábito que por gosto. Então, o que era um dente será um iceberg. E quando nem a anestesia amaina a dor, fica-se sabendo quão grande é um dente, esquadrinhando-o à sensação, que é o jeito menos mentiroso de medir, porém o mais intraduzível e não-padronizável.
              Eu lia outro dia Gabriel Garcia Márquez dizendo do quanto queria, em criança, que seus dentes fossem móveis, para que a tia pudesse escová-los enquanto ele brincava lá fora, à maneira que ela fazia com seus dentes.
              Dente também é aquele degrau que se instaura em móveis, utensílios e pequenos tesouros quando maculados. É presença fundamental em certas ferramentas para que se produza corte.
              Às vezes, portanto, não são só as ideias que estão fora de lugar. Palavras e sensações, porque em uso, nutrem-se, levianamente, daquilo que não deveria ser mais que mera predisposição.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Abusada, eu profanarei

         De tempos em tempos abuso de palavras. Eu odeio abusar de certar palavras. Tão logo me apercebo violando palavras, já não quero mais usá-las. Porque aí elas já viraram minhas muletas e palavra nenhuma é vil a ponto de sofrer tão malfadado fim.
      Estranhamente eu acho justo e divertido que alguém repita insistentemente uma gíria. Talvez porque às vezes há palavra que não me larga, forçando-me a escolhê-la.
         Mas, pretensiosamente almejo pronunciar um dia: Eu profanei a língua! Um dia eu hei de capturar a língua aí, em seu estado virginal, descarnado, qual corpo aberto e ferida exposta. E então, vou deitar e rolar sobre as palavras e corpos. Pedalarei máquinas de coser palavras e bordarei tecidos novos, e figurarei babados intransigentes, e abortarei palavras empregadas toscamente e gozarei em cada célula de palavra recém-nascida.
         Eu profanarei. E a isso hei de chamar o meu avesso, a minha prosa, o meu verso.