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domingo, 25 de outubro de 2009

Para encher um domingo

Quase uma dúzia de imagens colhidas ao caminhar pelo domingo:
Uma caixa de correio presa à porta do cemitério.
Uma árvore cor-de-rosa.
Um corvo à Edgar Alan Poe procurando restos.
Um ganso lustrando as penas azuis.
Um esqueleto dócil sorrindo à janela.
Um varal com desenhos infantis preenchendo a sala de estar.
Um gato preto guardando a casa vazia.
Dezenas de abóboras enfeitando uma árvore púrpura.
Um pescador com seu barco às costas.
As árvores em seus trajes de gala outonais desfilando em tapetes de folhas.

domingo, 18 de outubro de 2009

O fato domingueiro

        Há gentes que nem trajando o fato domingueiro, como se chama em Portugal a roupa mais formal ou a reservada para ocasiões especiais, consegue fazer um domingo. Talvez seja justamente porque para se viver um domingo, como para se viver uma vida, não se pode estar emproado em repertórios fixos e aparências vãs. Para merecer um domingo, há que se desejá-lo. Mas como é difícil saber o que, de fato, se deseja.
       Lá vou eu inventar meu domingo. E vocês?

domingo, 11 de outubro de 2009

Almoço de domingo

         Para Ela domingo sempre foi nostálgico. Para Ele nada era necessário e tudo desprezível: o riso, o choro, o luxo, o gozo, o perfume, o batom, as folgas. Só andanças solitárias, costumeiramente feitas por carreiros e por dentro de sangas saltando por entre pedras e poças d´água, ouvir causos de bêbados, fazer briques de bois e longas conversas com bugres enquanto amarravam cestos, mascavam fumo, tragavam cachaça do alambique e cuspiam no chão, enchiam-lhe a existência.
          Naquele domingo, Ela preparou a comida e com deleite Ele se fartou. Para entorpecer o dia, e sem outro motivo, e sem mais motivo, o homem buscou vinho de seu porão. Bebeu, avermelhou. Depois do vinho, pegou o machado e encarou a árvore imponente, antiga, ali na borda da bica d´água e disse:
         - Vou deitá-la ao chão.
         - Mas por que homem de Deus? Estremeceu a mulher.
         Ele não disse palavra. Ela chorou até, disfarçou, fingiu beber água. Mas o que não se pronuncia é sempre maior. A duros golpes o homem abriu uma fenda na terra e logo depois na raiz grossa. Exauriu-se. O gume afiado era em si próprio que cortava. Exauriram-se todos. A árvore resistiu lacrimejando resina ocre avermelhada. Nos três a esfoladura. A causa pode ser diferente, mas a dor é igual; ou a dor é diferente e a causa igual.
         Ele guardou o machado no porão e deitou-se sob a árvore. Ela se penteou e saiu para passear.
          Nunca mais falaram no assunto.