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terça-feira, 17 de novembro de 2009

O desejo de Madalena

Madalena tinha lá suas frases de efeito:
Conferindo as próprias axilas no fim do dia, espantava-se: que cheiro é esse? Não sou gambá.
Se lhe cortavam o cabelo demasiadamente, resmungava: estou tosada! Não sou uma ovelha!
Acometida por insônia intermitente, ralhava consigo mesma: durma, não és morcego.
Quando lhe davam serviços superiores as suas forças, indignava-se: não sou burro de carga.
Em dias de insatisfação própria de mulher, chiava: este cabelo acha o que? Não sou galinha d’angola.
E se seu homem não queria lhe chupar as partes, aborrecia-se: não sou uma porca, sou limpinha.
Para o caso de ele se achegar nela afoitamente, advertia: não sou coelho.
Se ele não lhe pegasse nos peitos como devia, atirava: não sou uma vaca.
Madalena queria se convencer de que era mulher.

domingo, 11 de outubro de 2009

Almoço de domingo

         Para Ela domingo sempre foi nostálgico. Para Ele nada era necessário e tudo desprezível: o riso, o choro, o luxo, o gozo, o perfume, o batom, as folgas. Só andanças solitárias, costumeiramente feitas por carreiros e por dentro de sangas saltando por entre pedras e poças d´água, ouvir causos de bêbados, fazer briques de bois e longas conversas com bugres enquanto amarravam cestos, mascavam fumo, tragavam cachaça do alambique e cuspiam no chão, enchiam-lhe a existência.
          Naquele domingo, Ela preparou a comida e com deleite Ele se fartou. Para entorpecer o dia, e sem outro motivo, e sem mais motivo, o homem buscou vinho de seu porão. Bebeu, avermelhou. Depois do vinho, pegou o machado e encarou a árvore imponente, antiga, ali na borda da bica d´água e disse:
         - Vou deitá-la ao chão.
         - Mas por que homem de Deus? Estremeceu a mulher.
         Ele não disse palavra. Ela chorou até, disfarçou, fingiu beber água. Mas o que não se pronuncia é sempre maior. A duros golpes o homem abriu uma fenda na terra e logo depois na raiz grossa. Exauriu-se. O gume afiado era em si próprio que cortava. Exauriram-se todos. A árvore resistiu lacrimejando resina ocre avermelhada. Nos três a esfoladura. A causa pode ser diferente, mas a dor é igual; ou a dor é diferente e a causa igual.
         Ele guardou o machado no porão e deitou-se sob a árvore. Ela se penteou e saiu para passear.
          Nunca mais falaram no assunto.