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quinta-feira, 17 de julho de 2014

Do amor até a palavra


 Onde meus afetos? Eu os perco no caminho, como aquele  sapatinho vermelho que perdi na infância.  Lavo-me. Banho-me demoradamente e caio em tentação.  Descuido-me. Tento despir-me de qualquer ideia impregnada. Vem uma palavra e atira promessas. Recuo. Ignoro. Finjo não ver. As palavras  também são seres voláteis. Elas se oferecem e me abandonam com a mesma fugacidade com  que  sirvo à luz do dia. 
 Essa fronteira irrisória entre o que sou e o que pretendo ser,  isso ensina-me a palavra. E fico fazendo-me de esquecimentos, de mal-entendidos, de disfarces, porque uma vida não se dá, uma vida se inventa. Uma vida é um arremesso contra a descrença, um quase,  uma punhalada  na covardia.  
 As palavras são viscerais e, estáticas, restam aí juntando  pó, dando nó como correntinhas de ouro  finas demais, embrulha um pouquinho para ver no que dá? Abandone-as, ainda que involuntariamente  e, quando  voltar a si, não mais se distinguirá começo e ocaso...  E será preciso muito tempo para desemaranhar o nó. Porque palavra na garganta é isso: uma distração que sofre. O vil metal, tomado a desleixo.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Canteiro de obras


Ideias para um texto e nenhuma   soberana o suficiente. E a  encomenda?  Pra quando é mesmo? – pergunta ao  imaginário editor  de si.  As ferramentas ali, o canteiro de obra aberto, colher de pedreiro, ruído de serras segmentando  treliças e vergalhões, cinto de segurança mantendo-a suspensa na armação de aço, escavadeiras rompendo o solo amalgamado. Onde se pisa quando o chão rui? Onde se acomoda sentimento quando a pergunta não  dá trégua? Esse visgo imaginário sempre foi sua  viga mestra? Ela ali, tentando escrever, o texto aberto. O  líquido verde do nível acumulado em uma das extremidades,  forçando-a a perceber que o  escrito  pendia para um lado.  Confusa,  entre um ruído e outro,  pensa: o aeroporto é só um não-lugar. As reformas atestam isso. Tudo imagem da infância. Não é licito usar imagem da infância? E se a família não gostar? E se nem parecer que foi mesmo? Pega  formão,  plaina, picão,   serrinha  a quatro mãos, pois nunca se sabe o que demandará um texto. Às vezes, o que ele exige são armas de fogo, outras... Um texto é isso. Matéria em estado bruto. Tal qual sentimento inominado.

domingo, 23 de maio de 2010

A divisa imprecisa

        O processo de aquisição de escrita em muito se assemelha ao ato de escrever em si. Superada a fase em que as questões ortográficas e a estatura da letra são os grandes dilemas, restará um outro tipo de ir e vir ao texto.
        Todo o escritor irá até o nu da palavra e a interrogará, querendo-lhe as vicissitudes. Quando minha aluna me perguntava outro dia se em nascimento cabia  c, s ou sc, pus-me a pensar que o nascimento da escrita não se faz sem interrogações intermitentes. Seja qual  for a natureza da pergunta.            
         O escritor aprendiz tem um zelo pelo desenho da letra, principalmente nas vezes primeiras em que se arrisca na letra bastão. E essa, intuo, é outra nuance eterna do ato de escrever: há que se desenhar uma ideia como se estivéssemos desenhando uma letra decisiva.
         O escritor aprendiz é extremamente minucioso com qualquer eira sobressalente, letra a letra, divisa a divisa.
         Como um aluno aprendiz de escrita, querendo que a letra seja exata, sob pena de significar outra coisa, o escritor adulto limpará o terreiro da escrita, palavra a palavra, retirando-lhe pedra solta, cisco, pó ou beira.
         O texto do escritor aprendiz é formado por ausências. O texto planeado do escritor adulto, abusará delas, requerendo a presença do leitor. O vazio será então uma estratégia do texto.
         O aluno aprendiz de escriba trafega entre modos de ler e escrever. Silabando, tateando, inferindo, adivinhando, surpreendendo-se, lendo. Migra da caixa alta para a cursiva, esforçando a letra, escrevendo.
         O escritor adulto, quase maquinalmente, escreve. Sua mente é que migra de si para si, para o mundo: silabando, tateando, inferindo, adivinhando, surpreendendo-se ao revés: lendo e escrevendo.
         Viver a aprendizagem da escrita diariamente, qual criança, muito pode ensinar ao escritor adulto.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Interlúdio

       Perdoem-me os leitores pela ausência de posts nas últimas semanas. Vou voltar. Talvez com menos frequência  que nos meses inaugurais. Não que a interrupção provisória dos posts fosse decorrente de algum ato furtivo permanente em minhas ganas de escrever. Mas eu continuo achando que escrever requer um tipo qualquer de sentimento que nem sempre se colhe. Escrita, e sentimento, não é inspiração, não é benesse, não é maturação, nem natureza. Eu acho que é uma flecha. Não é escolher, é ser escolhido. É um interlúdio. É um lapso. É uma urgência que interrompe provisoriamente alguma coisa inominada.