"Uma vida desperdiçada." Volta e meia e esse sentimento me acomete. Quem nunca se flagrou fazendo algo inútil (seja do ponto de vista estético, fisiológico, intelectual e por aí afora...) e autoflagelando-se para tentar penitenciar-se de crimes e pecados imaginários ou nunca cometidos? Fato é que chega uma hora que a gente cansa. Cansa muito. E daí não sobra quase nada de forças para recomeçar, abrir uma picada nova, um carreiro novo, uma travessia imaginária possível, qual a terceira margem de Guimarães. Tem dias em que eu não acordaria e é nesses que arrumo mais o vocabulário e os olhos. É quando ignoro todas as frases bonitas que já li e que poderiam vir em meu socorro. Então fico tateando em névoa, nessa que "olho humano algum dissipa". Fico lambendo fel, fico aspirando o azul. Fico. Fico trapaceando a fúria, imaginando-me explodir em mil e um pedacinhos impossíveis de serem restaurados e apaziguando demônios reais, porque aqui, qual cavalos de pensamentos, todo dia, todo. Do sentimento de uma vida desperdiçada salvam-nos os outros. Do sentimento de uma vida desperdiçada salvam-nos os outros? Sempre eles, tão solícitos e tão ausentes, tão reais e tão impalpáveis, tão soberanos de si e tão incapazes de dizer do inefável. Mas eles, os outros dos outros e os nossos outros, nos impingem a perguntar as perguntas fundamentais. Só nós e a nossa arte nos salvam do medo de perguntar. Só nós e a nossa arte nos salvam do medo de perguntar, como é mesmo o nome do que se vive?
segunda-feira, 1 de agosto de 2011
sexta-feira, 11 de março de 2011
Se
Se tivesse um Deus, rezaria para não ter medo.
Se não soubesse o que é amor incondicional, teria um cão.
Se quisesse ser solidão, seria azul.
Se não fosse infância, bastar-me-ia?
Se fosse carne, findaria pena, faina, labor.
Se não fosse gozo, sucumbiria.
Se tivesse um caminho, “The road not taken”.
Se não fosse escolha, suplantaria o torpor da crença.
Se fosse um dia, riso, ficção, letra, coragem seria.
Se não soubesse o que é amor incondicional, teria um cão.
Se quisesse ser solidão, seria azul.
Se não fosse infância, bastar-me-ia?
Se fosse carne, findaria pena, faina, labor.
Se não fosse gozo, sucumbiria.
Se tivesse um caminho, “The road not taken”.
Se não fosse escolha, suplantaria o torpor da crença.
Se fosse um dia, riso, ficção, letra, coragem seria.
terça-feira, 15 de fevereiro de 2011
Viver a pena
Queria escrever sobre a pena. Não tenho, porém, arcabouço jurídico e tampouco interesse para discorrer sobre a pena que se inflige ao condenado. Poderia relembrar Kakfa e a crueza da pena inscrita, à exaustão, no próprio corpo. Parece aliás que é sobre isso que quisera eu falar. Porque ando mesmo intrigada com a marca que a pena imprime no corpo/postura/modo de viver das pessoas. Seja porque elas são daquele "tipo" melodramático que se sentimentalizam por tudo ou porque impõem a si próprias a pena de viver. E, sob a égide da autoflagelação, fazem seu percurso de um jeito que aos outros soa perverso. Mas que modo de funcionamento é esse? Por que, diante de uma possibilidade de felicidade, escolhe o sujeito a lamúria e a autocomiseração? Por que há tantos livros de auto-ajuda intentando suprir essa ânsia por certezas? Bolas. Como é mesmo que se faz para encontrar o que nos move e disso não mais nos distanciarmos?
Vargas Llosa, depois de ter visto mais de uma vez a obra de Frida Kahlo (confessa ele, aliás, não ter se sentido tocado por ela da vez primeira), sobre ela pode opinar: “Há nesses quadros algo que vai além da pintura e da arte, algo que se aproxima desse indecifrável mistério de que é feita a vida do homem, essa base irredutível onde, como dizia Battaille, as contradições desaparecem, o belo e o feio se confundem e se tornam necessários um para o outro, assim como o gozo e o suplício, a alegria e o pranto, essa raiz profunda da experiência que ninguém consegue explicar, mas que certos artistas que pintam, compõem ou escrevem como que se imolando são capazes de nos fazer pressentir.”
Suportando a dor, ou teria sido transcendendo-a (?), Frida fez seu legado. E de quebra dá a ver o mistério da vida pela arte.
Viver é também suplantar a pena.
quinta-feira, 13 de janeiro de 2011
Saudações a quem tem coragem
Nesse início de ano a frase título desse post tem ressoado em mim. Quis, portanto, escrever a primeira página de 2011 acenando "Saudações a quem tem coragem", porque para quase tudo, e diariamente, coragem é remédio aplicável.
Há, contudo, diversas formas de inaugurar um ano novo.
Há aqueles que dizem sentir um tipo qualquer de certeza de mudança e põem-se a planejar tudo de novo, renovando o repertório de sonhos.
Há aqueles que preferem desfazer-se de memórias e badulaques antiquados e inaugurar o ano de alma e cara lavada.
Há aqueles que anseiam por uma mudança radical e julgam encontrar nos festejos do evento a propulsão faltante.
Há quem faça listas, as quais logo revelar-se-ão impraticáveis- por não caberem no orçamento, no tempo exíguo das 24 horas de um dia ou por não transcenderem a esfera das boas intenções.
Há outros que já começaram a marcar o ano assim: só faltam 347 dias para as férias chegarem novamente.
Há ainda quem deteste essa obrigação de ter que começar o ano como quem começa caderno novo: repleto de vontade de caprichar na letra, anotar a matéria, esmerar-se na organização como nunca fizera antanho. Entremeio a tanta ânsia pelo novo é prudente perguntar-se: o que é desejo antigo e só precisa ser continuamente alimentado? Se o planejado não foi levado a cabo ainda, porque enredar-se em outros planos? Só para usar o adjetivo novo, tal qual obrigação? O Ano Novo é então um mera continuação?
Há quem não faça distinção alguma entre primeiro de janeiro e uma tarde morna de um mês outonal. Onde o inusitado?
De minha parte, gosto de saudar o ano novo à maneira de uma visita: com a alegria e a esperança que raspamos em nós mesmos (ainda que não estejamos convictos de possuí-las) para dar as boas-vindas: pondo a toalha mais bonita e servindo a melhor comida na melhor louça. Gosto desse tipo de fineza. Gosto de tratar bem esses que trazem notícias e nos põem a passear em outras quimeras.
E que venha o porvir. E que saibamos todos inventá-lo!
quinta-feira, 18 de novembro de 2010
De estrangeiros, interlocutores e prestidigitadores
“E eu, menos estrangeiro no lugar que no momento” - O Estrangeiro, Caetano Veloso.
Adoro essa canção porque provoca-me a ideia de que o sentimento de não-pertencimento e de estrangeirismo guarda mais relações com o momento que se vive e com as experiências que nos passam do que necessariamente com o lugar que se viaje.
Sinto-me, portanto, estrangeira em mim, de mim, daqueles que me são mais próximos e familiares, ainda que estejamos em interlocução permanente.
Afinal, interlocução é isso, provocar um pensamento impensado, disparatado. Bons interlocutores são como bons prestigitadores, difíceis de achar e fáceis de crer, porque ambos já “tem esse dom de saber iludir”, para citar Caetano de novo. E as semelhanças vão além. Em verdade um bom interlocutor te surpreende e arrebata porque te diz o menos previsível. Ensaiadas no palco da vida suas tiradas serão certeiras, viscerais e críveis à maneira de um prestidigitador. E tudo o que a gente mais quer diante de um deles é a ilusão de uma certeza, temporária, mas consoladora.
Interlocutores e presditigitadores tem lá suas janotices perfeitamente aceitáveis, conferindo-lhes até alguma elegância.
Eu tenho sorte porque meus interlocutores são os melhores possíveis. De idades, credos e escolhas variadas brindam-me com sua sagacidade, perspicácia, generosidade, virulência e incredulidade, tão necessária para que eu rememore quem sou.
Há, claro, na palavra janota, um outro significado, este de tolice, parvoíce, como o é por exemplo o sujeito que vejo caminhando no Passeio quase todas as manhãs, de terno, gravata e sapatos lustros pouco usuais para uma pista de exercícios. Mas ele se deixa levar pela própria marcha e acolhemos sua condição alienígena. Afinal, dos lugares e momentos que percorremos minha fiel interlocutora e eu, avistamos melhor nosso chibante estrangeirismo.
Marcadores:
estrangeiro,
interlocutores,
prestidigitadores
segunda-feira, 15 de novembro de 2010
Açúcar bruto
Nenhum doce é o bastante para apagar o fel que se espalhou. Careço de açúcar, uma urgência que nenhum tacho de melado, marmelada ou açúcar mascavo cozidos durante os invernos de eu criança foi capaz de desfazer.
Vivi a honradez de ver nascer canas-de-açúcar, cortá-las, pilá-las, tomar-lhes as folhas e aprontá-las para o engenho, onde lhe sacaríamos o sumo que seria levado ao tacho. Esse saber-fazer impregnou-se em mim e eu tendo a acreditar que culinária é prima da bruxaria. Assunto sobre o qual pretendo escrever qualquer dia.
Mas a vida no campo era distante da vida na cidade e o açúcar refinado era raro em nossa casa, reservado para alimentar o bebê ou compor os doces mais seletos. Não, aqueles ainda não eram anos de comercializar informações sobre dietas naturais e lá pouca informação chegava sobre o valor do que produzíamos. De modo que sim, eu já vira açúcar cristal, mas demorei pra notar que o açúcar bruto que fazíamos guardava em si a mesma origem do açúcar cristal, tampouco especulava sobre o que era um cristal.
Entretanto, eu ia à escola e conduzi meu primeiro caderno à classe dentro de um saco vazio de açúcar cristal. Lembro-me, como se fora hoje, a transparência do plástico omitida pelo azul das letras grandes da marca CRISTAL, seu tamanho em relação a meu pequeno caderno e lápis. Era uma embalagem de 5 kg e, coincidência ou não, lembro-me perfeitamente da primeira lição que a professora anotou em meu caderno: preencher a primeira folha com o traçado do número 5. E fico até entendendo aqueles que gastam pequenas fortunas por uma embalagem antiga: eu adoraria ter alguma memória material daqueles anos.
Entretanto, eu ia à escola e conduzi meu primeiro caderno à classe dentro de um saco vazio de açúcar cristal. Lembro-me, como se fora hoje, a transparência do plástico omitida pelo azul das letras grandes da marca CRISTAL, seu tamanho em relação a meu pequeno caderno e lápis. Era uma embalagem de 5 kg e, coincidência ou não, lembro-me perfeitamente da primeira lição que a professora anotou em meu caderno: preencher a primeira folha com o traçado do número 5. E fico até entendendo aqueles que gastam pequenas fortunas por uma embalagem antiga: eu adoraria ter alguma memória material daqueles anos.
Naquele tempo eu me formava de brisa do campo, de uma alegria infantil por trançar folhas e galhos sob a sombra do mandiocal, do canto dos pássaros com quem eu dividia as melhores frutas da estação encontradas nos vãos altos das árvores e suas copas, de fazer de conta que montículos irregulares de açúcar mascavo eram balas, de esperar o regresso de meus irmãos, que iam à escola, à roça, à vida, para juntos enchermos as noites com as melhores conversar e jogos de adivinhar palavras.
Será isso que Gabriel Garcia Márquez chama de nostalgia da nostalgia?
Marcadores:
açúcar bruto,
cana-de-açúcar,
infância,
nostalgia
quinta-feira, 11 de novembro de 2010
Dentes
Dentre as sementes, as aladas são minhas favoritas. Nada exercia mais fascínio sobre minha infância que arremessar dentes-de-leão e, em vão, tentar capturar cada um dos cursos que iam desenhar no céu.
Mesmo hoje não resisto a colher dente-de-leão que se põe em meu caminho e, claro, sigo o ritual de fazer um pedido enquanto os assopro (“Em que crêem os que não crêem?”).
O dente-de-leão, quando flor imatura, até lembra, remotamente, a juba de um leão. Mas de resto distanciam-se. Acho a flor mesmo tacanha e sua altivez restará ínfima se comparada a do leão. Opinião sobre a qual ainda estou indecisa.
E depois tem a palavra dente no nome. Dente, esta aí como fato dado, até o momento em que se vai ao dentista, mais por força do hábito que por gosto. Então, o que era um dente será um iceberg. E quando nem a anestesia amaina a dor, fica-se sabendo quão grande é um dente, esquadrinhando-o à sensação, que é o jeito menos mentiroso de medir, porém o mais intraduzível e não-padronizável.
Eu lia outro dia Gabriel Garcia Márquez dizendo do quanto queria, em criança, que seus dentes fossem móveis, para que a tia pudesse escová-los enquanto ele brincava lá fora, à maneira que ela fazia com seus dentes.
Dente também é aquele degrau que se instaura em móveis, utensílios e pequenos tesouros quando maculados. É presença fundamental em certas ferramentas para que se produza corte.
Às vezes, portanto, não são só as ideias que estão fora de lugar. Palavras e sensações, porque em uso, nutrem-se, levianamente, daquilo que não deveria ser mais que mera predisposição.
Assinar:
Postagens (Atom)