quarta-feira, 9 de abril de 2014

Canteiro de obras


Ideias para um texto e nenhuma   soberana o suficiente. E a  encomenda?  Pra quando é mesmo? – pergunta ao  imaginário editor  de si.  As ferramentas ali, o canteiro de obra aberto, colher de pedreiro, ruído de serras segmentando  treliças e vergalhões, cinto de segurança mantendo-a suspensa na armação de aço, escavadeiras rompendo o solo amalgamado. Onde se pisa quando o chão rui? Onde se acomoda sentimento quando a pergunta não  dá trégua? Esse visgo imaginário sempre foi sua  viga mestra? Ela ali, tentando escrever, o texto aberto. O  líquido verde do nível acumulado em uma das extremidades,  forçando-a a perceber que o  escrito  pendia para um lado.  Confusa,  entre um ruído e outro,  pensa: o aeroporto é só um não-lugar. As reformas atestam isso. Tudo imagem da infância. Não é licito usar imagem da infância? E se a família não gostar? E se nem parecer que foi mesmo? Pega  formão,  plaina, picão,   serrinha  a quatro mãos, pois nunca se sabe o que demandará um texto. Às vezes, o que ele exige são armas de fogo, outras... Um texto é isso. Matéria em estado bruto. Tal qual sentimento inominado.

sexta-feira, 14 de março de 2014

Arqueologia urbana

         Ele sonhava em fazer de seus achados um roteiro. Tal qual um mapa com o qual se pudesse operar cidades. Uma vez, achou, em bairro que pouco distava do centro, um ninho de passarinho  avassalado de intempérie. Deu nisso. Pôs-se a esquadrinhar não só pássaro fêmea  de  olhar perscrutador sob o ninho arremetido ao chão, mas os hábitos  vizinhos. Onde eles? 
          Fios coloridos de outrora engrenagens cibernéticas, parte do que fora pompom de roupa de criança, cabelos e pelos de animais variados, díspares galhinhos, um anel plástico  que selara a cachaça mais barata,   gripa e palhinhas da estação passada,  rotas folhas, impressos  arruinados pela inclemência de tempos urgentes, paina amarfanhada  e outros restos menos prováveis se juntavam. Isso, mais  penugens arrancadas ao dono, compunha o intricado berço agora coroado de vazio.
        Ao largo,  buzina de carro,  ônibus freando para passar  lombada,  canos de escapes rotos,  estridências, conversas cruzadas; a  cunhada, a cunhada da esposa, a vó, a  bisa, o pai, o filho. Ruídos de família.  O menino, recém-saído da fralda, rodeava-o, convencendo-o de que, sob a réstia de luz, valia a pena plantar grãos de milho num canto secundário do terreno financiado. 
          Ele ali,  vizinho,vizinhos, um olho no ninho, outro no filho com a mão esbugalhando semente.  Dentro, fora, o  sagaz silêncio.

quinta-feira, 13 de março de 2014

A maioridade

Vinte e um anos morando na cidade grande e  parcas habilidades  ainda de  transitar entre os citadinos.  Todo dia era isso, ele acordava, uma  ideia renitente  comprimindo o peito: “E se não passar de hoje?  E se  descobrirem a grande farsa que em mim se assenta?”
 Ele não era dali, ele nunca poderia  saber o que era ter nascido  e erigido, aí, seu castelo de conveniências. Por isso ele gostava de trabalhos impossíveis. De preferência encomendados, daqueles brabos, com data e hora para finalizar.
Não era a sua praia, nunca seria, mas às vezes achava que deveria estar  em uma agência de publicidade. - “Não é isso que dizem? Que marqueteiro tem deadline? Meia noite e... o último expiro!  E o glamour da publicidade? Ela que  se confunde com o nobre pressuposto de comunicar? Arras! Qual o que?”  
Só ideias. Isso. Ele era isso, só ideia. Nenhuma  mulher, algum emprego,  contas no escaninho da portaria do prédio, poucos amigos e um  ermo de sentimento. 
 Mas uma coisa era certa, todo dia, às 6:45, ele haveria de estar lá, na praça Rui Barbosa, exibindo musculatura e parcimônia  em exercícios  orientais. “Aqueles,  sabe? Aqueles que formam desenhos no ar.” 
 Ele  não supõe, mas sua disciplina chinesa,  em movimentos sincopados, braço direito  encontrando no ar a mão esquerda,  e o reverso,  braços e pernas abertos - da visão do homem vitruviano à simetria do universo... Ele  não saberá, mas seus fugazes  desenhos chineses  iludem  a moça triste que passa e, desavisadamente,  esquece de avançar no sinal verde, capturada pela ideia que,  ela imagina, deve acometer o talvez estrangeiro: “Cada um é cada um. Um dia ainda encontro a justa medida! Aí então serei tal qual um citadino.”

sexta-feira, 9 de março de 2012

Da série "apontamentos para uma biografia"

Eu era criança quando descobri que os loucos pegam por atalhos. Depois, Manoel de Barros me ensinou de novo.
Eu odiava a ideia de não ter minha dor respeitada. Porque sempre repetiam, em tom de pecha, quando eu tinha feridas simples, como um espinho à pele: “ai, cuidado porque vai sair a barrigada”. Uma dor de criança é assim: visceral. Então, sim, era uma dor capaz de pôr tudo a perder: a possibilidade de brincar, de ser feliz, de aprender, de estar.
Eu ganhei um presente sem nunca tê-lo recebido, e por isso sonho até hoje com presentes inexistentes.
Eu já era adolescente quando recusei-me a receber uma carta de amor. E fiquei para sempre imaginando como seria receber uma carta de amor.
Em adulta fiz escolhas, e, de todas, as mais imperecíveis são as da memória. Aquilo que se ama com a memória, diz Adélia Prado, ama-se eternamente.
Quando não estou para nada, luto e brinco de apaziguar memórias, mas quem consegue?

domingo, 26 de fevereiro de 2012

De terreno e de texto

       Escrever um texto assemelha-se ao ato de fazer uma roça. Pois,  quando se chega em um terreno, primeiro há que se percorrê-lo todo, tomando nota de onde estão suas envergaduras e de para onde  vão suas inclinações, em elas havendo. Caso  ele não as tenha, por plaino de feitio ou amainado, então semeia-se à mão cheia. Mas em ele sendo rústico, de relevos irregulares ou íngremes, então se estuda com mais cautela como proceder a semeadura. Para um texto quase  se pode seguir o mesmo princípio: considera-se o terreno, ou tu mesmo,  as ferramentas que se tem e as primeiras idéias, seminais. Depois de tê-las percorrido, é chegado o momento de descobrir como arremessá-las ao solo chão do papel branco,  (ou da tela, mais factível para os tempos que correm).  Escolhidas as primeiras palavras, então sim, vai se adubando com outras ideais próprias ou lidas e tomadas daqui e dali. Quando o solo é fértil, ou quando a ideia é fértil, quase que se toma tudo do chão próprio. Mas em se tratando de terreno extenuado ou inexperiente, buscar suplementos será um requisito.  Citar os outros em um texto autoral é parecido com adubar o terreno, injetá-lo de vigor e ousadia, renová-lo, acrescendo-lhe artificialmente daquilo que é fundante a um terreno, dar-lhe consistência.  Solo adubado, sementes lançadas e enfim...  o demais do trabalho é do colono, do escritor. Ele, manuseando as ferramentas escolhidas com rigor, dará estatura ao texto e fará de sua escritura/cultura a própria representação de si. Eu acho que é assim que eu tento escrever um texto.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Vestes para uma criatura

           Começa-se dando muitas voltas em torno do tema, o pano, o fundo. Lendo-o, perfilando-o. Depois, traçam-se linhas mestras como se fosse a costura que lhe dará o desenho, a feição principal. Ele/a não precisa de pedrarias, adereços e adjetivos em demasia. Basta que a costura seja reta e justa, o acabamento bem feito e os arremates imperceptíveis. Muitos daqueles que entendem das artesanias irão averiguar o avesso do artefato para certificar-se da habilidade do criador. Um ponto que falta, uma linha que sobra, uma beira ou viés sobressalente e lá se deitou fora toda a boniteza do tecido. Quase ao fim do empreendimento, volta-se por sobre ele/a e esmerilha e espera e esmera. Nota-se facilmente quando há postos frouxos, a vista enganou-se por viciada ou o caimento não está bem. Esta é a hora de repousar, criador e criatura, tomando ares novos, desmembrando-se. Findo o ato, escolhe-se outra ponta e, vai recheando, amarrando, preenchendo, estofando o texto, o tecido, até que pareça consistente o bastante para ser por si só. O intuito é fazer parecer artes de prestidigitação. Não há mãos ali, não há vontades sobrantes. Há a tessitura e, com sorte, respira vida própria. De quimeras e alusões àquele que lhe deu origem: encorpa, vigora, estabelece. Para que a criação não nasça fadada à validade determinada é preciso que tenha envergadura nobre e se baste. Então, adeus! Lá se vai mais uma roupa que nunca lhe pertenceu de todo. Outros a vestirão, emprestar-lhe-ão suas vozes, a traduzirão, levar-lhe-ão a passeio em seus deliberados gostos e vontades. É assim que se faz uma veste, digo um texto.



terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Um Passeio Público e umas ideias

           Quando foi criado, no século XIX, o Passeio Público tinha o propósito, tal como tantas outras obras públicas, de atrair a atenção para seus feitores, mais do que gerar melhorias e conforto a seus usuários. Nestor Vítor, um viajante da época, aproveitava para falar dos ares urbanos que Curitiba ia ganhando “à medida que os sapos e os pobres iam cada vez para mais longe” do centro. Ele também já foi Jardim Botânico e Zoológico.
           Mas hoje, e para mim, o passeio é palco de múltiplas anedotas. Gozado o nome precisar conter em si a ideia de público. Soa quase tão paradoxal quanto aquela iniciativa que havia um tempo atrás chamada “teatro para o povo”. Ora, se não o povo, quem vê o teatro? Para quem é o teatro? Então para quem é o passeio se não para seu público? E o que fazemos quando vamos à passeio se não dar a ver a nós mesmos? Estamos sempre na esfera pública (e a passeio?) tão logo deixemos o recinto privado (isso quando os vizinhos e seus sons potentes e  seus pets não invadem esse que deveria ser nosso reduto inviolável).
           Eu acho que as árvores do Passeio têm soberania. Eu vivi a finitude de uma delas outro dia, pois que foi tragada pelo vento. Ela estava bem bonita ao chão, como só pode ser bonita uma árvore adulta e gigantesca. Aliás, queria vê-la assim em uma mata. Teria ela cumprido seu destino?  Se me ressenti? Porque tenho amor nelas, por frequentá-las. Eu sei de muitos pássaros que ali vão amiúde e  ninam e zelam a prole, enquanto renovam seus genes. Mas é avassalador quando um deles, ainda com corpinho de parcas pluma, estatela-se cá em baixo.
           Eu também me amuo quando vejo as prostitutas chorando. Outro dia uma delas, nem tão bonita, chorava um choro comedido e constante.
           Eu penso no Passeio como um museu a céu aberto, um pátio, um canteiro de obras, um chão de fábrica. Ali estão todos, as crianças em seu deslumbramento diante de tucanos, gralhas-azuis, pavões, trinca-ferros, pelicanos e cotias. As mulheres que fazem dele seu espaço e trabalho. Os homens sedentos de algum afeto e sacanagem. Os acadêmicos exaustos de pensar. Os sozinhos/desocupados/velhinhos/boêmios e nem tanto, limando trias, baralhos e cavalos ao xadrez. Aqueles que se acham normais e aqueles que não sabem muito bem quem são, mas, vez ou outra procuram saber.  Ou não.
           Se o frequentarmos ao término de um dia é provável que nos deparemos com aquele homem, (cujo nome burocrático da profissão eu ignoro, um cuidador de animais?), parcimoniosamente a carregar a tartaruga para o abrigo. Eu adoro ver aquela tartaruga de pernas para o ar sendo levada tão vagamente. Acho que ela nunca tenta esticar o pescoço enquanto ele lhe resume o trajeto.
            É isso. Eu tenho cá pra mim que o Passeio me amplia e engrandece.
            Então, vamos ao Passeio.