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quarta-feira, 9 de abril de 2014

Canteiro de obras


Ideias para um texto e nenhuma   soberana o suficiente. E a  encomenda?  Pra quando é mesmo? – pergunta ao  imaginário editor  de si.  As ferramentas ali, o canteiro de obra aberto, colher de pedreiro, ruído de serras segmentando  treliças e vergalhões, cinto de segurança mantendo-a suspensa na armação de aço, escavadeiras rompendo o solo amalgamado. Onde se pisa quando o chão rui? Onde se acomoda sentimento quando a pergunta não  dá trégua? Esse visgo imaginário sempre foi sua  viga mestra? Ela ali, tentando escrever, o texto aberto. O  líquido verde do nível acumulado em uma das extremidades,  forçando-a a perceber que o  escrito  pendia para um lado.  Confusa,  entre um ruído e outro,  pensa: o aeroporto é só um não-lugar. As reformas atestam isso. Tudo imagem da infância. Não é licito usar imagem da infância? E se a família não gostar? E se nem parecer que foi mesmo? Pega  formão,  plaina, picão,   serrinha  a quatro mãos, pois nunca se sabe o que demandará um texto. Às vezes, o que ele exige são armas de fogo, outras... Um texto é isso. Matéria em estado bruto. Tal qual sentimento inominado.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Açúcar bruto

           Nenhum doce é o bastante para apagar o fel que se espalhou. Careço de açúcar, uma urgência que nenhum tacho de melado, marmelada ou açúcar mascavo cozidos durante os invernos de eu criança foi capaz de desfazer.
          Vivi a honradez de ver nascer canas-de-açúcar, cortá-las, pilá-las, tomar-lhes as folhas e aprontá-las para o engenho, onde lhe sacaríamos o sumo que seria levado ao tacho. Esse saber-fazer impregnou-se em mim e eu tendo a acreditar que culinária é prima da bruxaria. Assunto sobre o qual pretendo escrever qualquer dia.
          Mas a vida no campo era distante da vida na cidade e o açúcar refinado era raro em nossa casa, reservado para alimentar o bebê ou compor os doces mais seletos. Não, aqueles ainda não eram anos de comercializar informações sobre dietas naturais e lá pouca informação chegava sobre o valor do que produzíamos. De modo que sim, eu já vira açúcar cristal, mas demorei pra notar que o açúcar bruto que fazíamos guardava em si a mesma origem do açúcar cristal, tampouco especulava sobre o que era um cristal.
           Entretanto, eu ia à escola e conduzi meu primeiro caderno à classe dentro de um saco vazio de açúcar cristal. Lembro-me, como se fora hoje, a transparência do plástico omitida pelo azul das letras grandes da marca CRISTAL, seu tamanho em relação a meu pequeno caderno e lápis. Era uma embalagem de 5 kg e, coincidência ou não, lembro-me perfeitamente da primeira lição que a professora anotou em meu caderno: preencher a primeira folha com o traçado do número 5. E fico até entendendo aqueles que gastam pequenas fortunas por uma embalagem antiga: eu adoraria ter alguma memória material daqueles anos.
           Naquele tempo eu me formava de brisa do campo, de uma alegria infantil por trançar folhas e galhos sob a sombra do mandiocal, do canto dos pássaros com quem eu dividia as melhores frutas da estação encontradas nos vãos altos das árvores e suas copas, de fazer de conta que montículos irregulares de açúcar mascavo eram balas, de esperar o regresso de meus irmãos, que iam à escola, à roça, à vida, para juntos enchermos as noites com as melhores conversar e jogos de adivinhar palavras.
           Será isso que Gabriel Garcia Márquez chama de nostalgia da nostalgia?

 

domingo, 6 de junho de 2010

A Velha da Curva

        Moravam numa beira de terra, exatamente onde a estrada batida fazia uma curva e encontrava-se com outro carreiro, de modo a formar uma encruzilhada. Encruzilhada, naquela terra de crentes, era ideia maculada pelo peso do destino, do incerto. Não podia ser bom.
        Ali, num eito sem dono, que lhe fora cedido para espiar culpas de riqueza e terras em demasia, moravam as duas. Da menina sabíamos ao menos o nome. Da mãe só conhecíamos os modos e os trajes repetidos. A boca sem dentes, o cabelo em desalinho, a vassoura em punho, as roupas cerzidas a mão, com ares de resto, fazia com que lhe vestíssemos mil caricaturas.     
       As habitantes daquele casebre visitado por parcas almas e raios de luz eram, para nós, a máscara perfeita do horror. O território desabitado da criança acaba preenchido com explicações fantasiosas que inventa. E a mulher facilmente ficou sendo a Velha da Curva.
       Tinha, nos limites do casebre, um enorme pé de castanheira, cujos frutos nós cobiçávamos avidamente, ano a ano. Para catar os bagos deixávamos momentaneamente de recear. Transfigurado o medo, catávamos tantos quantos podíamos. Ela nunca ralhou. Nem quando ao arremessarmos pedras à árvore estas caiam-lhe sobre o teto. Parecia acostumada àquela vida.
       À escola, Madalena era quase invisível. Só não era quando chegasse a hora de tripudiá-la. Nem quando Madalena se enchera de piolhos puseram-na em sossego. Encontraram-lhe o couro cabeludo em carne viva e ali a incapacidade de aprender. Anunciaram seu infortúnio, já iniciado em malsucedidos anos escolares.
         Um dia, quando estávamos  uma vez mais a caminho da escola, caía  chuva densa e a Velha nos convidou ao casebre. Ficamos tomados de horror e surpresa. Éramos seus convidados. Seu chão batido era limpo. No caldeirão suspenso sobre o fogo de chão, fervia qualquer comida. Ela estava acima de nossas suspeitas e tirania infantis.   Diante da inesperada visita, Madalena desenhava-se, furtivamente, tal qual uma menina, como nós. E a imagem logo esmaecia.
        A Velha da Curva, nunca abandonara sua casa. Naquele dia, girando a língua na boca banguela, ensinara-me o que Saramago ensinou-me hoje: “Para conhecer uma coisa é preciso dar-lhe a volta toda”.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Sem ocaso, a infância.

      Das memórias de infância importo palavras que habitam meu cotidiano. Hoje quis falar de algumas delas.
      Nas lides no campo, trilhava-se o milho. Trilhar o milho era separar os grãos do sabugo, da palha e dos pelos. Isso nos envolvia em uma nuvem de pó e em uma avalanche de grãos limpos e de cores vívidas saindo da trilhadeira. Era revigorante ver e mergulhar em tantos grãos frescos juntos. Hoje, parece que além de separar as coisas, como outrora era trilhar o milho, trilhar diz-se de escolher, de inventar um caminho, de percorrer um universo nem sempre facilmente navegável. Tatear um destino enovoado.
      Jogar carreira. Brincadeira simples que meu pai costuma fazer comigo. Depois descobri que esta era em verdade uma competição comigo mesma. Porque papai sempre desistia, às escondidas, logo depois da largada. Mesmo assim eu corria rápido para mostrar-lhe o tanto quanto eu poderia correr. Hoje carreira diz-se das coisas mais sérias, que envolvem formação, currículo e atuação. E faz-se mesmo um tipo qualquer de aposta com a própria sorte. E com as próprias forças.
       Costurar o eito: meu pai gostava dessa ideia de costurar o eito. Ele nos ensinava como era andar por atalhos. Ele nos ensinava como, cada um  capinando a sua parte, resultaria um eito pronto. Ele gostava de ir pelas beiradas, ora iniciando, ora arrematando o eito, dando a deixa pra gente atuar. Era um tipo de teatro. Éramos atores no palco cru da terra. Era uma grande colcha de retalhos feita a enxada.
       Estar a coser. Hoje falar em tecer, em tecido, tem um quê de moderno. Para mim é, uma vez mais, reavivar um tipo de memória originária. Em criança, a ideia de juntar as coisas, de dar forma aquilo que antes era um pano, de ver como as linhas saiam dos carretéis para se cruzarem e unirem no pé da máquina, operavam em mim grande fascinação. E eu gostava de ver o avesso do bordado feito por minha irmã e de ver os fios que restavam da costura. Porque a vida não se faz sem sobras e folgas e alinhavos.
       À corredeira. Estagiei minha infância em poças e valetas que exerciam sobre mim seus convites irrecusáveis a cada chuva. Feita de pequenas avalanches, poças e caminhozinhos ideados ao acaso, a vida segue. Em curso.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Larápios

       Eles vinham um a um. Eles vinham em bandos. Eles se serviam do grão recém-colhido, do alimento reservado para a entre safra, do queijo que curava à prateleira no frescor do porão, de restos. Eles deixavam seus rastros, seus odores e pêlos. Eles enchiam a noite com seus guinchos e chiados e corridinhas de corte à fêmea. Eles invadiam o paiol, a estrebaria, o chiqueiro e a casa com seus ares de urgência. Traziam ninhadas de filhotes tão frágeis que não guardavam sinal da sinistra criatura que os originara ou nas quais se transformariam em breve. Se perseguidos caberiam em qualquer vão. Se irados se embrenhariam em toda fresta. Se acuados investiriam contra qualquer matéria. Se amedrontados espalhariam sua urina ácida e inconfundível. Se famintos roeriam quaisquer corpos. Eram ratos, incontável número deles, que enchiam de horror e náusea aqueles tempos que os outros ousaram chamar de nossa infância.