terça-feira, 5 de agosto de 2014

Uma ideia de palavra

Já viram? A traça quando sai de lugar em que se deixou estar marca um vão. Imprimi aí um vácuo. É quase um decalqueMas não é como casulo de  bicho da seda ou  borboleta, tampouco como casca de cobra, porque devorou.  Se fez  pondo a sucumbir em vez de dar vida.  Não gosto de traça. Essa inútil bobeira. Esse ser ignóbil atodo tempo se fingir  morto.  E se ela está onde nada pode corroer, que lhe importa? Trama um jeito de, em largando ali seu visgo,  fazer remanescer algo de si.  Quanto a mim, que gosto de tantos seres,  gosto da palavra. A palavra, como a vida, também se faz de ocos. E é no oco que eu quero estar. Quero saber o que há de frescor nisso que já não é  mais. Porque aquilo que se abandona, permanece. É como casca de ferida que criança adora arrancar. Já disseram que  criança faz isso é porque  adora seu dodói.  Os adultos também adoramos nossos doer e arrancamos cada casquinha de ferida a seco, para ver de novo o sangue invadir a pele.  Porque somos viscerais. Sem volteios. Queremos saber como se faz para botar vida na crosta seca, para sentir   a dor presente, que já não é a mesma, porque uma dor nunca imita a si.  Por a nu a ferida quase sã é arrancar uma palavra de seu torpor.


domingo, 27 de julho de 2014

Para ler

A qualquer hora do dia, vaga,  leio-lhe e perscruto-lhe. Entre idas e vindas um pensamento toma-me de assalto: de  restos e esboços  também se  faz um personagem de si.  Da junção de quase nada útil se insinua uma obra. Entre distraído e absorto,  chega-se repentinamente a essa dança fugaz. Então,  se houver palco, haverá ato. 
Ler requer várias investidas, à maneira da escrita. E é só de um ventre  vigoroso   que pode nascer a escritura. É   como no ato amoroso: uma ação  não desfaz  a outra, como vacilos e pensamentos inesperados  são bem-vindos.
Ler  não requer só ferramentas e  aparatos racionais: atravessamentos de opiniões, voluptuosidade, ecos, carícias, sussurros longínquos, recuos, tensão viril,  infusões passionais, olhares atônitos, qualquer  luz lúgubre   compõem a cena.  
São sempre plurais as leituras, especialmente quando  passíveis de intervenções  perturbadoras, aprazíveis, avassaladoras.
Se assim for,  quando concluídas, findam? Ou   seus   efeitos reverberativos permanecerão?

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Do amor até a palavra


 Onde meus afetos? Eu os perco no caminho, como aquele  sapatinho vermelho que perdi na infância.  Lavo-me. Banho-me demoradamente e caio em tentação.  Descuido-me. Tento despir-me de qualquer ideia impregnada. Vem uma palavra e atira promessas. Recuo. Ignoro. Finjo não ver. As palavras  também são seres voláteis. Elas se oferecem e me abandonam com a mesma fugacidade com  que  sirvo à luz do dia. 
 Essa fronteira irrisória entre o que sou e o que pretendo ser,  isso ensina-me a palavra. E fico fazendo-me de esquecimentos, de mal-entendidos, de disfarces, porque uma vida não se dá, uma vida se inventa. Uma vida é um arremesso contra a descrença, um quase,  uma punhalada  na covardia.  
 As palavras são viscerais e, estáticas, restam aí juntando  pó, dando nó como correntinhas de ouro  finas demais, embrulha um pouquinho para ver no que dá? Abandone-as, ainda que involuntariamente  e, quando  voltar a si, não mais se distinguirá começo e ocaso...  E será preciso muito tempo para desemaranhar o nó. Porque palavra na garganta é isso: uma distração que sofre. O vil metal, tomado a desleixo.

terça-feira, 8 de julho de 2014

Poeminha nascido com ares de um pássaro

Quero-lhe  no nada. Quero-lhe tudo.

 Quero seu avesso. Sua verdade inaugural.
Quero-lhe  tantas quantas forem  suas facetas e que, ocasionalmente,  diga-me aquilo que nunca pudestes dar.
Quero-lhe para além do ruído cotidiano.
Quero-lhe   até   não saber precisar  o que a mim ou a ti pertence.
Quero-lhe em  cada lampejo de lucidez e alegria. Quero-lhe assim: na incongruência, como  quero seu inferno e todas as sombras que desenham sua solidão ou espraiam suas nuances.
Quero-lhe,  à medida que o tempo passa, em  cada uma de suas novas acepções.
Quero-lhe no gozo  pouco previsível.
Quero-lhe a um só  tempo inesperado e fronteiriço.
 Quero-lhe  na vastidão do segredo,  na intimidade ignorada, na imprecisão contumaz.
Quero-lhe para quando eu não puder me fazer ouvir e você nada puder nomear.
Quero-lhe em cada vicissitude e  para não sucumbir   ao  enfado.
Quero-lhe para viver idiossincrasias.  
Quero-lhe na ferida exposta e  para quando não se puder   extirpar a dor.
Quero-lhe, com amor,  enfim: palavra!

terça-feira, 22 de abril de 2014

Decalcomania

Ela sempre teve dificuldade de usar o que lhe é dado: das lâminas de  decalcolagem  ganhas na infância,  cujo destino fácil era  virarem enfeites na pia ou  geladeira azul de sua mãe,  às benesses do presente. Por isso amarrava-se ao passado.
Ela abominava  aquelas arranjos artificiais  decalcados  na geladeira amarela da vizinha. Ela  sempre teve decalcomanias em casa, mas e  onde a coragem de usá-las.? O mesmo se dava com as cartelas de adesivos decorativos. E o que dizer do jogo de lençol que ganhou  na década de 90? Lá, erguido na última prateleira do armário, juntando marca amarelada no vinco.   Cadê  coragem de  usar lençol tão  branco?
Hoje, filhos crescidos, netos crescidos, cabelos brancos, um presentinho ou outro guardado ainda na embalagem e um resfriado que não cede.  Família vem no pacote, pensa.  Ovo de páscoa da data passada, ainda embrulhado, rato roeu... Farelo bordado  de  papel reluzente caído do bolso do único terno roto pendurado no armário. Isso. Esse fiozinho de existência. Esta vida comezinha. Essa certeza de  sentimento, fininha, qual  papel laminado de ovo de páscoa.
Nas decalcomanias, lê em  Walter Benjamim, as cores flutuam aladas sobre todas as coisas.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Fins


Todo fim de feira é assim:  xepas de aqui e acolá. É como palco de teatro que, depois de ter cedido lugar ao evento principal,  esvaído de público,  perfaz-se de restos.  Assim seria também a sala de aula ideal? O que sobra quando  saídos alunos e professores?  E que pensamentos  ocupam o coveiro, depois que todos se foram e  o que parece  restar é terra revolvida, um corpo defunto e cimento fresco?  Que  coisas  assolam as gentes que ficam quando alguém se despede?    E todo fim de festa é assim? Restos, sobras, excessos, a fineza derretida em maquiagens já lúgubres, a roupa amarrotada, uma sensação a mais de felicidade acondicionada,  com data e hora de validade. Quanto  durará?

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Assim é (se lhe parece)


Que a gente é o que é,  é uma dessas  impressões que vira e mexe assalta a cabeça da gente. Agora que a gente possa se reconhecer nesses tantos outros que podemos ser e  ignoramos, é o mais contundente.  Devaneios tomam-nos de assalto.
A manicure adolescente, um turno na escola, outro no  salão de beleza, piercing reluzente no nariz, maquilagem à Ammy Winehouse,   barriguinha  ora à mostra  ora mal disfarçada sobre a blusinha amarela choque expondo  dobrinhas de farta  ansiedade  e ilusão,  comenta com a amiga ao lado: “Minha unha nunca mais foi a mesma  desde que arranjei esse emprego aqui”. E assevera: “olho gordo”.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Canteiro de obras


Ideias para um texto e nenhuma   soberana o suficiente. E a  encomenda?  Pra quando é mesmo? – pergunta ao  imaginário editor  de si.  As ferramentas ali, o canteiro de obra aberto, colher de pedreiro, ruído de serras segmentando  treliças e vergalhões, cinto de segurança mantendo-a suspensa na armação de aço, escavadeiras rompendo o solo amalgamado. Onde se pisa quando o chão rui? Onde se acomoda sentimento quando a pergunta não  dá trégua? Esse visgo imaginário sempre foi sua  viga mestra? Ela ali, tentando escrever, o texto aberto. O  líquido verde do nível acumulado em uma das extremidades,  forçando-a a perceber que o  escrito  pendia para um lado.  Confusa,  entre um ruído e outro,  pensa: o aeroporto é só um não-lugar. As reformas atestam isso. Tudo imagem da infância. Não é licito usar imagem da infância? E se a família não gostar? E se nem parecer que foi mesmo? Pega  formão,  plaina, picão,   serrinha  a quatro mãos, pois nunca se sabe o que demandará um texto. Às vezes, o que ele exige são armas de fogo, outras... Um texto é isso. Matéria em estado bruto. Tal qual sentimento inominado.

sexta-feira, 14 de março de 2014

Arqueologia urbana

         Ele sonhava em fazer de seus achados um roteiro. Tal qual um mapa com o qual se pudesse operar cidades. Uma vez, achou, em bairro que pouco distava do centro, um ninho de passarinho  avassalado de intempérie. Deu nisso. Pôs-se a esquadrinhar não só pássaro fêmea  de  olhar perscrutador sob o ninho arremetido ao chão, mas os hábitos  vizinhos. Onde eles? 
          Fios coloridos de outrora engrenagens cibernéticas, parte do que fora pompom de roupa de criança, cabelos e pelos de animais variados, díspares galhinhos, um anel plástico  que selara a cachaça mais barata,   gripa e palhinhas da estação passada,  rotas folhas, impressos  arruinados pela inclemência de tempos urgentes, paina amarfanhada  e outros restos menos prováveis se juntavam. Isso, mais  penugens arrancadas ao dono, compunha o intricado berço agora coroado de vazio.
        Ao largo,  buzina de carro,  ônibus freando para passar  lombada,  canos de escapes rotos,  estridências, conversas cruzadas; a  cunhada, a cunhada da esposa, a vó, a  bisa, o pai, o filho. Ruídos de família.  O menino, recém-saído da fralda, rodeava-o, convencendo-o de que, sob a réstia de luz, valia a pena plantar grãos de milho num canto secundário do terreno financiado. 
          Ele ali,  vizinho,vizinhos, um olho no ninho, outro no filho com a mão esbugalhando semente.  Dentro, fora, o  sagaz silêncio.

quinta-feira, 13 de março de 2014

A maioridade

Vinte e um anos morando na cidade grande e  parcas habilidades  ainda de  transitar entre os citadinos.  Todo dia era isso, ele acordava, uma  ideia renitente  comprimindo o peito: “E se não passar de hoje?  E se  descobrirem a grande farsa que em mim se assenta?”
 Ele não era dali, ele nunca poderia  saber o que era ter nascido  e erigido, aí, seu castelo de conveniências. Por isso ele gostava de trabalhos impossíveis. De preferência encomendados, daqueles brabos, com data e hora para finalizar.
Não era a sua praia, nunca seria, mas às vezes achava que deveria estar  em uma agência de publicidade. - “Não é isso que dizem? Que marqueteiro tem deadline? Meia noite e... o último expiro!  E o glamour da publicidade? Ela que  se confunde com o nobre pressuposto de comunicar? Arras! Qual o que?”  
Só ideias. Isso. Ele era isso, só ideia. Nenhuma  mulher, algum emprego,  contas no escaninho da portaria do prédio, poucos amigos e um  ermo de sentimento. 
 Mas uma coisa era certa, todo dia, às 6:45, ele haveria de estar lá, na praça Rui Barbosa, exibindo musculatura e parcimônia  em exercícios  orientais. “Aqueles,  sabe? Aqueles que formam desenhos no ar.” 
 Ele  não supõe, mas sua disciplina chinesa,  em movimentos sincopados, braço direito  encontrando no ar a mão esquerda,  e o reverso,  braços e pernas abertos - da visão do homem vitruviano à simetria do universo... Ele  não saberá, mas seus fugazes  desenhos chineses  iludem  a moça triste que passa e, desavisadamente,  esquece de avançar no sinal verde, capturada pela ideia que,  ela imagina, deve acometer o talvez estrangeiro: “Cada um é cada um. Um dia ainda encontro a justa medida! Aí então serei tal qual um citadino.”

sexta-feira, 9 de março de 2012

Da série "apontamentos para uma biografia"

Eu era criança quando descobri que os loucos pegam por atalhos. Depois, Manoel de Barros me ensinou de novo.
Eu odiava a ideia de não ter minha dor respeitada. Porque sempre repetiam, em tom de pecha, quando eu tinha feridas simples, como um espinho à pele: “ai, cuidado porque vai sair a barrigada”. Uma dor de criança é assim: visceral. Então, sim, era uma dor capaz de pôr tudo a perder: a possibilidade de brincar, de ser feliz, de aprender, de estar.
Eu ganhei um presente sem nunca tê-lo recebido, e por isso sonho até hoje com presentes inexistentes.
Eu já era adolescente quando recusei-me a receber uma carta de amor. E fiquei para sempre imaginando como seria receber uma carta de amor.
Em adulta fiz escolhas, e, de todas, as mais imperecíveis são as da memória. Aquilo que se ama com a memória, diz Adélia Prado, ama-se eternamente.
Quando não estou para nada, luto e brinco de apaziguar memórias, mas quem consegue?

domingo, 26 de fevereiro de 2012

De terreno e de texto

       Escrever um texto assemelha-se ao ato de fazer uma roça. Pois,  quando se chega em um terreno, primeiro há que se percorrê-lo todo, tomando nota de onde estão suas envergaduras e de para onde  vão suas inclinações, em elas havendo. Caso  ele não as tenha, por plaino de feitio ou amainado, então semeia-se à mão cheia. Mas em ele sendo rústico, de relevos irregulares ou íngremes, então se estuda com mais cautela como proceder a semeadura. Para um texto quase  se pode seguir o mesmo princípio: considera-se o terreno, ou tu mesmo,  as ferramentas que se tem e as primeiras idéias, seminais. Depois de tê-las percorrido, é chegado o momento de descobrir como arremessá-las ao solo chão do papel branco,  (ou da tela, mais factível para os tempos que correm).  Escolhidas as primeiras palavras, então sim, vai se adubando com outras ideais próprias ou lidas e tomadas daqui e dali. Quando o solo é fértil, ou quando a ideia é fértil, quase que se toma tudo do chão próprio. Mas em se tratando de terreno extenuado ou inexperiente, buscar suplementos será um requisito.  Citar os outros em um texto autoral é parecido com adubar o terreno, injetá-lo de vigor e ousadia, renová-lo, acrescendo-lhe artificialmente daquilo que é fundante a um terreno, dar-lhe consistência.  Solo adubado, sementes lançadas e enfim...  o demais do trabalho é do colono, do escritor. Ele, manuseando as ferramentas escolhidas com rigor, dará estatura ao texto e fará de sua escritura/cultura a própria representação de si. Eu acho que é assim que eu tento escrever um texto.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Vestes para uma criatura

           Começa-se dando muitas voltas em torno do tema, o pano, o fundo. Lendo-o, perfilando-o. Depois, traçam-se linhas mestras como se fosse a costura que lhe dará o desenho, a feição principal. Ele/a não precisa de pedrarias, adereços e adjetivos em demasia. Basta que a costura seja reta e justa, o acabamento bem feito e os arremates imperceptíveis. Muitos daqueles que entendem das artesanias irão averiguar o avesso do artefato para certificar-se da habilidade do criador. Um ponto que falta, uma linha que sobra, uma beira ou viés sobressalente e lá se deitou fora toda a boniteza do tecido. Quase ao fim do empreendimento, volta-se por sobre ele/a e esmerilha e espera e esmera. Nota-se facilmente quando há postos frouxos, a vista enganou-se por viciada ou o caimento não está bem. Esta é a hora de repousar, criador e criatura, tomando ares novos, desmembrando-se. Findo o ato, escolhe-se outra ponta e, vai recheando, amarrando, preenchendo, estofando o texto, o tecido, até que pareça consistente o bastante para ser por si só. O intuito é fazer parecer artes de prestidigitação. Não há mãos ali, não há vontades sobrantes. Há a tessitura e, com sorte, respira vida própria. De quimeras e alusões àquele que lhe deu origem: encorpa, vigora, estabelece. Para que a criação não nasça fadada à validade determinada é preciso que tenha envergadura nobre e se baste. Então, adeus! Lá se vai mais uma roupa que nunca lhe pertenceu de todo. Outros a vestirão, emprestar-lhe-ão suas vozes, a traduzirão, levar-lhe-ão a passeio em seus deliberados gostos e vontades. É assim que se faz uma veste, digo um texto.



terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Um Passeio Público e umas ideias

           Quando foi criado, no século XIX, o Passeio Público tinha o propósito, tal como tantas outras obras públicas, de atrair a atenção para seus feitores, mais do que gerar melhorias e conforto a seus usuários. Nestor Vítor, um viajante da época, aproveitava para falar dos ares urbanos que Curitiba ia ganhando “à medida que os sapos e os pobres iam cada vez para mais longe” do centro. Ele também já foi Jardim Botânico e Zoológico.
           Mas hoje, e para mim, o passeio é palco de múltiplas anedotas. Gozado o nome precisar conter em si a ideia de público. Soa quase tão paradoxal quanto aquela iniciativa que havia um tempo atrás chamada “teatro para o povo”. Ora, se não o povo, quem vê o teatro? Para quem é o teatro? Então para quem é o passeio se não para seu público? E o que fazemos quando vamos à passeio se não dar a ver a nós mesmos? Estamos sempre na esfera pública (e a passeio?) tão logo deixemos o recinto privado (isso quando os vizinhos e seus sons potentes e  seus pets não invadem esse que deveria ser nosso reduto inviolável).
           Eu acho que as árvores do Passeio têm soberania. Eu vivi a finitude de uma delas outro dia, pois que foi tragada pelo vento. Ela estava bem bonita ao chão, como só pode ser bonita uma árvore adulta e gigantesca. Aliás, queria vê-la assim em uma mata. Teria ela cumprido seu destino?  Se me ressenti? Porque tenho amor nelas, por frequentá-las. Eu sei de muitos pássaros que ali vão amiúde e  ninam e zelam a prole, enquanto renovam seus genes. Mas é avassalador quando um deles, ainda com corpinho de parcas pluma, estatela-se cá em baixo.
           Eu também me amuo quando vejo as prostitutas chorando. Outro dia uma delas, nem tão bonita, chorava um choro comedido e constante.
           Eu penso no Passeio como um museu a céu aberto, um pátio, um canteiro de obras, um chão de fábrica. Ali estão todos, as crianças em seu deslumbramento diante de tucanos, gralhas-azuis, pavões, trinca-ferros, pelicanos e cotias. As mulheres que fazem dele seu espaço e trabalho. Os homens sedentos de algum afeto e sacanagem. Os acadêmicos exaustos de pensar. Os sozinhos/desocupados/velhinhos/boêmios e nem tanto, limando trias, baralhos e cavalos ao xadrez. Aqueles que se acham normais e aqueles que não sabem muito bem quem são, mas, vez ou outra procuram saber.  Ou não.
           Se o frequentarmos ao término de um dia é provável que nos deparemos com aquele homem, (cujo nome burocrático da profissão eu ignoro, um cuidador de animais?), parcimoniosamente a carregar a tartaruga para o abrigo. Eu adoro ver aquela tartaruga de pernas para o ar sendo levada tão vagamente. Acho que ela nunca tenta esticar o pescoço enquanto ele lhe resume o trajeto.
            É isso. Eu tenho cá pra mim que o Passeio me amplia e engrandece.
            Então, vamos ao Passeio.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

De engenho e gelosia

Eu juro que às vezes  acho que sei quem sou. Mas, que assaz lampejo.
Hoje eu seria simplesmente um engenho, desses que em minha infância tínhamos em casa para moer cana no inverno.
Ou poderia ser uma rama de mandioca, porque esse caulezinho tem colmos à maneira da cana-de-açúcar (coisa que eu também já gostei de ser), mas seus nós apenas se insinuam, criando um relevo na escultura-tronco.
Sem sair da categoria vegetal, eu facilmente seria uma esponja, com suas ranhuras, seus vazios, dutos e trajetos.
Em um dia para mineral, emprestaria palavras de Rosa e diria querer ter a luminosidade dura do diamante.
Nesse preciso instante, que já não é, eu seria um tacho daquilo que chamávamos marmelada, sem que a receita contivesse um marmelo sequer. Porque eu sempre achei bonito ver como mudava a profundidade, a cor,  o aroma, a luminescência, a textura de laranjas, cubos de abóbora e mandioca cozidas ao melado quente.
Em estado de coisa eu poderia ser uma gelosia ou um portão de estrada na roça, com seus vãos e nervuras. E daí eu chamaria um Cronópio para me ajudar a contar-lhes como ultrapassar um portão sem abri-lo. Fato que muito os agradaria, suponho. Mas isso já é conversa para outro dia.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Eu te amo porque te amo

Arthur,
Hoje, como em todos os dias, bem-vindo.
Nascer é uma dádiva, é uma grata surpresa. Viver então?
E ser curitiboca nem é de todo mal, você vai ver...
E porque te amo desde sempre e para sempre, aí vai um poeminha, emprestado de Drummond,  para você que é poemeu.



"Amor é estado de graça e
com amor não se paga.
amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira,
no eclipse.

Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários
eu te amo porque te amo,
bastante ou demais a mim
porque amor não se troca,
não se conjuga
nem se ama

Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo"

domingo, 2 de outubro de 2011

Vontade, absolvição e luto

Dia desses adjetivaram-me curiosa. Nem sei. Sempre quero saber dos outros. Daquilo que os move, de seus anseios, de seus desejos, de como domam o tempo, de que coisas os arremetem ao futuro. Deve ser por isso que alguém um dia disse: “o inferno são os outros”. Sim, são os outros porque eles podem. Eles parecem infinitamente capazes. Eu, de minha parte, acho que além dos outros o inferno sou eu. Que procrastino, que sofro, que faço doer cada desilusão e contragosto. Não, eu não sei criar metáfora para falar da fúria. Não, eu não sei fazer metonímia, tampouco transparecer sentimento senão pelo modo mais infantil e tosco: às migalhas, por lágrimas e silêncio inquieto. Nada compatível com viver adultamente. Mas quem disse que lá anos fazem uma vida ser menos sôfrega. Isso, intuo, deve ter pego raiz ainda no ventre. Essa pasmaceira, essa melancolia, essa impossibilidade de buscar utopia. E é preciso quase uma vida para expurgar vãos trôpegos. Não, eu não uso fitinha de Nosso Senhor do Bonfim ou de Nossa Senhora de Aparecida. Obrigada. - Talvez devesse? - De amuletos fartei-me. Mas sim, há quem use, ainda que não acredite. Sob o argumento sedutor de “há tantas coisas que precisamos fazer e nas quais não acreditamos”. A mim  bastar-me-ia poder voltar a rezar o Creio e, convencida da remissão dos pecados, começar semana nova, qual fazíamos quando crianças. Bastar-me-ia?
Quero o fel? Nada. Quero a ilusão? Quase. Quero uma vida inteira. E depois saber como vivê-la. Toda.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Do inefável e os outros

             "Uma vida desperdiçada." Volta e meia e esse sentimento me acomete. Quem nunca se flagrou fazendo algo inútil (seja do ponto de vista estético, fisiológico, intelectual e por aí afora...) e autoflagelando-se para tentar penitenciar-se de crimes e pecados imaginários ou nunca cometidos?  Fato é que chega uma hora que a gente cansa. Cansa muito. E daí não sobra quase nada de forças para recomeçar, abrir uma picada nova, um carreiro novo, uma travessia imaginária possível, qual a terceira margem de Guimarães. Tem dias em  que eu não acordaria e é nesses que arrumo mais o vocabulário e os olhos. É quando ignoro  todas as frases bonitas que já li e que poderiam vir em meu socorro. Então fico tateando em névoa, nessa que "olho humano algum dissipa". Fico lambendo  fel, fico aspirando o azul. Fico.  Fico trapaceando a fúria, imaginando-me explodir em mil e um pedacinhos impossíveis de serem restaurados e apaziguando demônios reais, porque aqui,  qual  cavalos de pensamentos, todo dia, todo. Do sentimento de uma vida desperdiçada salvam-nos os outros.  Do sentimento de uma vida desperdiçada salvam-nos os outros? Sempre eles, tão solícitos e tão ausentes, tão reais e tão impalpáveis, tão soberanos de si e tão incapazes de dizer do inefável. Mas eles, os outros dos outros e os nossos outros,  nos impingem a perguntar as perguntas fundamentais.  Só  nós e a nossa arte nos salvam do medo de perguntar. Só nós e a nossa arte nos salvam do medo de perguntar, como é mesmo o nome do que se vive?

sexta-feira, 11 de março de 2011

Se

Se tivesse um Deus, rezaria para não ter medo.
Se não soubesse o que é amor incondicional, teria um cão.
Se quisesse ser solidão, seria azul.
Se não fosse infância, bastar-me-ia?
Se fosse carne, findaria pena, faina, labor.
Se não fosse gozo, sucumbiria.
Se tivesse um caminho, “The road not taken”.
Se não fosse escolha, suplantaria o torpor da crença.
Se fosse um dia, riso, ficção, letra, coragem seria.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Viver a pena

           Queria escrever sobre a pena. Não tenho, porém, arcabouço jurídico e tampouco interesse para discorrer sobre a pena que se inflige ao condenado. Poderia relembrar Kakfa e a crueza da pena inscrita, à exaustão, no próprio corpo. Parece aliás que é sobre isso que quisera eu falar. Porque ando mesmo intrigada com a marca que a pena imprime no corpo/postura/modo de viver das pessoas. Seja porque elas são daquele "tipo" melodramático que se sentimentalizam por tudo ou porque impõem a si próprias a pena de viver. E, sob a égide da autoflagelação, fazem seu percurso de um jeito que aos outros soa perverso. Mas que modo de funcionamento é esse? Por que, diante de uma possibilidade de felicidade, escolhe o sujeito a lamúria e a autocomiseração? Por que há tantos livros de auto-ajuda intentando suprir essa ânsia por certezas? Bolas. Como é mesmo que se faz para encontrar o que nos move e disso não mais nos distanciarmos?
            Vargas Llosa, depois de ter visto mais de uma vez a obra de Frida Kahlo (confessa ele, aliás, não ter se sentido tocado por ela da vez primeira), sobre ela pode opinar: “Há nesses quadros algo que vai além da pintura e da arte, algo que se aproxima desse indecifrável mistério de que é feita a vida do homem, essa base irredutível onde, como dizia Battaille, as contradições desaparecem, o belo e o feio se confundem e se tornam necessários um para o outro, assim como o gozo e o suplício, a alegria e o pranto, essa raiz profunda da experiência que ninguém consegue explicar, mas que certos artistas que pintam, compõem ou escrevem como que se imolando são capazes de nos fazer pressentir.”
            Suportando a dor, ou teria sido transcendendo-a (?), Frida fez seu legado. E de quebra dá a ver o mistério da vida pela arte.
            Viver é também suplantar a pena.